Contágios

Faz coisa de dois anos vi-me envolvido na redação dum artigo acadêmico que, por desejo e orientação duma das coautoras, acabamos por enviar para uma revista britânica chamada Resilience. O artigo vinha a ser a continuação dum diálogo acontecido meses antes, numa mesa-redonda na que um grupo de pessoas vinculadas aos estudos urbanos foramos convocadas para a discussão dum projeto artístico sobre práticas urbanas resilientes.

Lembro que, na parte do texto que eu redigi, aproveitei para retomar uma provocação sobre o conceito de resiliência que já me esforçara por colocar naquele vis-à-vis prévio. Entendia que a resiliência era um modismo conceitual —como pouco depois seria o antropoceno— paparicado pela ciência ‘mais-ou-menos’ oficial, a economia política do conhecimento e a sua indústria editorial; um conceito despolitizador que reduzia os antagonismos a questões de natureza ‘administrativa’ ou a um solucionismo técnico —vertical e centralizado— onde ninguém mexia com as partilhas sensíveis do mundo.

Mas, além das discussões teóricas, o meu desentendimento visceral vinha duma afeição mais profunda. Lembrava como na crise de 2008, à medida que o mundo se estreitava e muitas pessoas víamos como se esnaquizavam as nossas possibilidades de existência, o discurso dos porta-vozes dos vencedores apelava todo o tempo à resiliência. Como se naquele pharmakon —veneno e remédio ao mesmo tempo, como nos lembra Isabelle Stengers— se ocultasse a poção mágica para sobrevivermos no neoliberalismo. Como se o neoliberalismo, claro, promovesse sujeitos resilientes —seja lá o que isso for— e não sujeitos apenas neoliberais, isto é: bem sucedidos nuns modos de subjetivaçãométrica’ que proliferam tanto na direita como na esquerda.

De maneira um tanto paródica, o artigo não chegou a se publicar porque, no processo de avaliação por pares, a revista faliu. O journal que havia acolher parte do debate resiliente no mundo e, se cadra, publicar o nosso trabalho, não foi resiliente abondo e a empresa editora decidiu tirá-lo do mercado.

Recupero esta anedota porque no devir da pandemia da Covid-19 ela tem aguilhoado o meu pensamento com insistência.

Nestas semanas de confinamento aconteceram um monte de coisas. Além da interrupção colossal da máquina do mundo, e da apocalipse laboral que muitos sentimos no cangote —e que volta nos tirar a respiração já cortada— a doença e a morte reapareceram nas nossas vidas, transbordando as ficções de imunidade ontológica dos modernos.

Na rotina inquietante do isolamento, cada um, ao seu jeito —e acompanhado do seu fantasma particular—, faz um pouco o que pode. Eu, nos primeiros dias, defini o meu dispositivo da quarentena: comprar o pão longe da casa, baixar torrents, avançar —pouco— nos meus trabalhos, beber vinho pra garantir uma anestesia mínima e ler na procura de sentido —também, sim, pra abrandar a angústia. Mas não estou conseguindo achar sentido por canto nenhum.

De repente, muitas das análises publicadas no clima de sobre-excitação da pandemia, textos de gente que normalmente me ajuda a pensar, começaram a me saber um pouco a comida pré-cozinhada e requente: são as sobras? De quê? E, aliás, em muitos desses textos pareceu-me ver reflexos dum mundo no que ninguém se toca e onde nos olhamos de esguelho hoje mais ca ontem: mimese das ruas.

Confinados e privados das intensidades dos corpos e das possibilidades que abrem os encontros, o político parece fechar-se, obstinado, quando mais aberto o desejamos. E nesse espaço parece que as alternativas infernais tomam conta de tudo. Dum lado, o Estado e os especialistas, reduzindo o possível ao seu ponto de vista —absoluto— e deixando apenas um papel para nós: indivíduos confinados e espectadores assombrados. Do outro lado, a teoria crítica, cheia de razão, e ativando o seu repertório c(l)ínico de diagnóstico; emitindo de maneira compulsória juízos e sentenças morais sobre um mundo sem mundo.

Por acaso, Rancière apareceu para nos lembrar que «o momento do depois corre o risco de colocar o mesmo problema do momento do antes: o das forças capazes de ligar o combate contra as forças de exploração e dominação à invenção de um outro porvir. Não é óbvio que o confinamento nos tenha feito avançar nessa direção».

Estes dias, alguns enunciados claramente ‘performativos’ parecem nos ‘alertar’ sobre a iminência da maior crise do capitalismo após a II Guerra Mundial. A mim assaltaram-me de novo os fantasmas neuróticos da crise; nomeadamente, aqueles que têm a ver com a impotência e a paralise num presente bloqueado —sem fendas.

Contudo, sempre há vida e inteligências coletivas acionando-se e insurgindo-se para além das alternativas infernais; sujeitos e coletivos trabalhando no sentido da vida e atrapalhando os caminhos da morte. Todos esses arranjos e agenciamentos coletivos parecem emergir do poder daquilo que nos é comum e, também, do que é concreto: os corpos, as coisas e as inúmeras demandas da vida que não espera. Penso nalgumas experiências de abertura de infraestruturas e equipamentos de cuidado; nos arranjos que médicos e pacientes estabelecem entre sim além das normas e protocolos; nos malabarismos sem fim que professores, mães/pais e estudantes inventam nestas semanas para sustentar o seu vínculo; ou nos gestos e atos de amor que proliferam nestes dias e que fazem o confinamento mais habitável. O novo coronavirus irrompeu com fúria e está levando muita gente, mas essa cena de morte não é exclusiva e concorre com novas potências de vida em articulação —e essas forças, também, são contagiosas. §

por Brais Estévez Vilariño

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